hoje descobri uma pérola 🙂
Estou completamente exausto, desde manhã que não faço mais nada se não trabalhar neste conto (leitura + resumo + confirmar com as notas tiradas na leitura e agora publicação), mas isto é a maneira de me prepara para mais um dia complicado como o que vai ser manhã 🙂
de resto hoje, voltei a Santa Maria, onde fiz os tratamentos que tinha de fazer e onde ainda estava a ver tudo a andar à volta, encontrei-me com uma MUITO QUERIDA amiga que conheço desde os 10 anos e com quem tentei falar ainda com a cabeça a tentar assentar das maldades que lhe tinham acabado de fazer…
O conto chama-se “o inventor” e é da Flor Bela Espanca. Deixem-me dizer-vos que é uma absoluta delicia… acho que é a primeira vez que leio Flor Bela Espanca, mas é uma escrita fabulosa, cheia de vida e de ritmo 🙂
O conto chama-se “O Inventor”
Começa com uma descrição deliciosa de um bébé na sua bacia de cobre, onde imagina nos seus três litros de água um oceano. Com a sua vontade de ser marinheiro, imaginava enormes vagas, nas ondas do banho.
Quando olhava para o fundo da bacia e via o reflexo da luz no fundo da bacia, imagina-se a olhar para o fundo do mar e em tesouros fantásticos.
De vez em quando, levantava os pezinhos e naufragava 🙂 a agua cobria-lhe a cara, engolia um pirulito e chorava como um sovado, agarrado à mãe como se ela fosse a sua última boia, o ultimo refugio de um naufrago perdido no meio do mar
Quando ficou menino, todos os dias a mãe aprontava-o para ir para casa da avó. Vestia-o com esmero, penteava-o e recomendava-lhe cuidado no caminho. Mas todos os dias o menino saia e debaixo do calor forte do Alentejo, via o tanque dos … Cardosos. Aquela superfície prateada e luminosa, cintilava de uma forma que ele não conseguia resistir.
Invariavelmente chegava ao tanque com determinação de só molhar uma mãozita, e assim fazia. Deitava-se na borda do tanque e passeava os dedinhos pela superfície da água imaginando grande batalhas e feitos temerários.
Quando o braço lhe pesava, ou quando a imaginação lhe fazia a mão navegar mais longe, invariavelmente acabava por molhar a manga.
Primeiro arregaçava a manga e depois despia a parte de cima, e já agora descalçava-se para também poder refrescar os pés. E como dá mais trabalho arregaçar as calças que tira-las, acabava sempre por as tirar, e com o seu corpito moreno e magro, mergulhava no tanque, onde ás aventuras e as missões importante se sobrepunham sempre à memória do que a mãe lhe tinha dito para fazer.
Nesta parte do conto há uma frase deliciosa, que mostra bem o tipo de escrita de Flor Bela Espanca que é “um melro azul à busca de ser negro, espreita delicioso o camarada, por entre os ramos dos salgueiros, de um verde mais intenso, mais cru na tarde que sobe resplandecente”
Só quando a noite começava a chegar é que com sobressalto se lembrava que não devia estar ali, altura em que se voltava a vestir em grande desalinho, tal a pressa com que o fazia, na tentativa mitigar o erro cometido.
Quando chegava a casa, a mãe ralhava com ele, e bruscamente dava-lhe o jantar e metia-o na cama. Triste, o menino fazia beicinho enrolado sobre si próprio e virado para a parede.
De noite, todos os sonhos eram mar. Navegava em oceanos terríveis e nadava com toda a energia.
A mãe levantava-se umas dez vezes por noite para o ir aconchegar, e não resistia de sorrir a olhar para aquele menino.
Quando entrou na escola, não se conseguia concentrar. Passava o tempo a olhar para a rua a sonhar com batalhas e piratas. Tirava folhas aos livros para fazer barcos de papel e adormecia agarrado a um barco de cortiça, com velas brancas de pano cru que o pai lhe tinha dado e todo ele é mar.
Quando entrou no liceu, lia avidamente Júlio Verne e todas as aventuras de mar que ele escreveu. Imagina-se comandante de navios a defender o convés com a sua espada até à ultima gota de sangue, por honra de uma dama presa debaixo do convés. Foi também aí que lhe nasceu uma enorme vontade de ir para a escola naval.
Chama a um gato sarnoso que adotou de marujo, ao cão com quem brinca almirante e a uma galinha a quem arranjou as penas, canhoeira
Quando chegou a idade e entrou na escola naval e foi como São Pedro lhe tivesse aberto a porta do céu. Ver-se na sua farda com um galão de alferes bordado a ouro, era a realização do seu sonho.
Um dia chega a altura e entrar pela primeira vez num barco, e quando o faz lembra-se da sua bacia de cobre e sento uma alegria imensa.
Depois é ver o barco a sair e Lisboa a esfumar-se pouco a pouco no horizonte. Mas o mar não foi nada do que ele esperava. O mar não era tão grande como ele o sonhara, nem havia damas presas debaixo do convés. Não existiam piratas e o mar era uma enorme maçada.
Foi nessa altura que decidiu mudar de vida, olhou para o céu, franzi-o sobrolho e naquele momento decidiu que havia de ser aviador. E foi!
Tal como as ancoras o prendiam à terra, as asas permitir-lhe-iam voar.
No primeiro dia que foi voar como piloto e se sentou na carnagem do avião, percebeu que estava acompanhado pela morte e que esta o acompanharia para sempre, sempre que ele fizesse qualquer manobra, sempre que descolasse ou aterrasse.
E um dia quando estava a voar, percebeu que havia qualquer coisa de errado. De repente o céu estava vazio e para onde quer que olhasse não via ninguém. Nessa altura pensou que tinha de inventar um novo motor perfeito que permitisse a todos voar sem riscos e sem perigos
Encerrou-se nos seus projetos e durante mais de um ano, mortificou-se com este projeto. Umas vezes desanimado, outras com a luz de quem está perto da solução, trabalhou e trabalhou dia e noite até que um dia, achou que tinha descoberto o motor prefeito.
Desenhou e criou cada uma das peças com uma subtileza que faziam inveja a uma amante, até que um dia deu por terminada a sua tarefa.
Nesse dia, escreveu ao diretor de aviação a sugerir-lhe que criasse uma comissão para avaliar o que ele tinha desenvolvido, lacrou o envelope e foi passear.
Andou, andou, até que os passos o levaram até ao pé do tejo. Ai sentou-se e ficou a olhar os barcos. De repente, levantou-se num salto e percebeu que não podia fazer o que estava a fazer. Os barcos acorrentados, lembraram-lhe a liberdade de voar e voltou para casa, onde rasgou com cerimónia a carta que há algumas horas tinha escrito.
Relativamente ás peças, colocou-as todas num saco, para talvez mais tarde a deitar no fundo do rio.
Em seguida foi dormir e quando acordou … “ o aviador olhou para o lado, e ao lado do seu peito, na carlinga, e sorriu à companheira invisível que não quisera expulsar”
Agora digam-se lá se isto é, ou não de uma elevação fantástica? Ainda bem que a sorte me pôs este conto no caminho que é das coisas mais bonitas que eu já li, se me permitem a sugestão leiam mesmo este conto!!!
Nem fazia ideia que a Florbela Espanca tinha publicado prosa!
Estás um descobridor.
E a disposição parece boa, apesar das tropelias que te fazem. Prémio de endurence! É continuar assim.
PRÁ FRENTE!
Abç
Não conhecia o conto, mas fiquei cheia de curiosidade e fui lê-lo (no telemóvel! As coisas a tu me levas…) e é belíssimo. Obrigada!