7 de julho

hoje no hospital só fiz a quimio e a radio terapia e começo a achar que das duas uma:

  • ou isto começa a complicar-se
  • ou isto faz-se na boa 🙂

depois de tarde ainda fui ter com o meu filho mais novo a uma festinha que ele teve de encerramento dum programa de férias que a junta tem (e que eu acho que já vos referi)

com o resto do tempo, descobri outro conto chama-se “o sobrenatural” e é mais uma absoluta delicia …

Começar por dizer que três homens e três mulheres “de vida fácil” estão a comemorar uma “data memorável e festiva, que nenhum sabia ao certo o que era”.

Estavam-no a fazer num gabinete muito pequeno, mas, no entanto, confortável de um clube.

O mais velho dos homens é Castro Franco, que é um homem inteligente, culto com má fama na sociedade. A opinião generalizada é que ele era um devasso.

O segundo, Paulo Freitas, era um jovem louro, bem-parecido, que usava um monóculo e grande amigo de Castro Franco de que aliás era uma sombra. Paulo Freitas passava a vida a tentar trazer-lhe ordem à vida de Castro Franco.

Castro Franco não tinhas horas para comer, nem para dormir, esbanjando tempo e dinheiro de uma forma completamente imprevisível

O terceiro era Mário Menezes era um “belo rapaz moreno e forte e tipo peninsular com uns soberbos olhos claros cheios de profundeza e doçura”

Duas das três raparigas, faziam-se ouvir de uma forma particularmente audível na discussão que o grupo estava a ter e só uma das raparigas; Gatita Blanca é que permanecia majestaticamente silenciosa, fumando lentamente um cigarro.

Catita falava corretamente espanhol, francês, inglês para alem do português, e era de uma elegância extrema. Em particular, tinha uns olhos maravilhosamente amendoados, verdes e duros. Desejada por todos os clubes, dela só se conheciam amantes escolhidos criteriosamente por ela.

Gatita era um mistério em Lisboa. Tinha aparecido sem rasto, o que fazia com que a imaginação popular fosse criando hipóteses. Uns diziam que era filha de um duque espanhol que por tão austero querer ser, perder a filha.

Outros diziam que era uma feireira que tinha fugido de um convento de Bruges.

Outros achavam mesmo que Gatita era Catarina, filha fugida do czar deposto

Muito acima dessas especulações, Gatita passeava-se por Lisboa espalhando uma imagem a que ninguém era indiferente.

Catita Blanca era também o nome que lisboa lhe inventou. Catita eventualmente por causa dos seus olhos felinos, Blanca pelos vestidos de sedas duras que usava

No gabinete a discussão era sobre o que era ser um burguês. Castro Franco, com a insistência própria dos ébrios. Uma das raparigas dizia já meio a dormir, com os caracóis louros sobre a mesa a tocar os restos de uma perdiz, dizia indolentemente, ser burguês é ter dinheiro.

Castro Franco responda que não era isso. Ele por exemplo tinha dinheiro e mostrando-o garantia que não era burguês.

Paulo Freitas arriscou então que ser burguês era ter vontade de ir para a cama ás 9:00, que que Castro Franco respondeu que também ele tinha vontade de ir para a cama a essa hora quando estava há três dias sem dormir e que isso não fazia dele um burguês.

No meio de uma nuvem de fumo, Gatita diz então que ser burguês é ter tido medo, pelo uma vez na vida

Mário Meneses, aproxima-se da janela para ver a chuva e tentar perceber o sentimento que teve quando viu Gatita. De fato era a segunda vez que a via. A primeira tinha sido na véspera quando foram apresentados e quando o primeiro olhar amendoado lhe provocou danos.

Ainda virado para a janela, pensou que tudo isso era um disparate e que era apenas mais uma mulher “de vida fácil” que conhecera, por acaso em Lisboa e que rapidamente esqueceria.

Quando se virou, Gatita estava a olhar para ele de uma forma fixa e penetrante, que o arrepiou.

E Gatita Blanca pergunta-lhe se alguma vez teve medo.

Mário Mendes responde que sim, que pelo uma vez uma vez teve medo, tinha então 24 anos.

A rapariga que tinha a cabeça junto à mesa, levantou-a e olhou para Mário Mendes com incredibilidade, e Castro Franco endireitou-se e olho-o para ele com surpresa

Na altura namorava com uma rapariga que morava ali perto e que por alguma razão foi passar as férias do natal a Queluz numa quinta muita antiga com uma amiga.

Ele começou por não querer ir, preferindo passar o natal com a família. Havia um madeiro de azinho na lareira a mesa da ceia estava pronta e adivinha-se que a seguir à missa do galo, a avó passaria a noite a contar os intermináveis contos de fada que ela tão bem conhecia enquanto lá fora se cumpriria a profecia da avó e se “cerraria a noite em água”

Prevendo a monotonia da rotina anual, Mário Mendes decidiu ir passar o natal com a namorada.

Apanha um carro, que o leva à velha quinta. O homem que o conduz não diz uma palavra durante todo o caminho e ao chegarem, aponta-lhe uma vereda escura.

Vencendo o primeiro instinto, Mário Mendes paga o serviço e começa a passar por um labirinto de murtas quase do tamanho dele e onde de vez em quando aparecem estatuas ajustadoras, que à luz do dia seriam eventualmente belas esculturas de mármore branco.

No final tem ainda de passar por dois cães de granito, mas chega a casa onde é bem-recebido.

A noite corre muito bem, comem cantam e dançam até bastante tarde, até que chega a hora de se deitarem e como mandam os bons princípios, seria inaceitável dormir sob o mesmo teto da namorada.

É então encaminhado para um anexo, onde há uma cama ao pé de uma janela com grandes frestas de onde ele assiste à metamorfose da tempestade. A chuva desapareceu e foi substituída por um forte vento que fazia dobrar as enormes árvores que rodeavam o casebre.

O vento que entrava pelas frestas, fazia a chama da vela que lhe tinham dado inclinar-se toda para um lado, até ao ponto de quase a apagar.

Os reposteiros eram muito velhos e roídos pelos ratos e tudo era decrépito.

Nessa altura Mário Mendes repara que há umas escadas em pedra e aventurando-se por elas descobre que dá para uma outra sala toda em pedra, toda despida.

Volta para a cama ajusta a roupa apaga a vela e predispõem-se a dormir.

Nesta altura há esta frase deliciosa no conto “Mário Mendes calou-se e circunvagou pelo gabinete um olhar estranho, um olhar de sonâmbulo que se cruzou com a lamina de aço de um olha esverdeado que o fitava ardentemente”.

Mário Mendes retomou a explicando que quando já a dormir, é acordado por grandes estrondos, vindos das enormes portas de carvalho. E logo em seguida ouve um rss, rss um “ramalhar de seda e passinhos leves no quarto

Ajustado Mário Mendes procura o revolver e a caixa de fósforos. Acende a vela e começa a procurar a razão do sobressalto, afastando as cortinas, vasculhando a sala de pedra, mas nada encontra.

Volta para a cama, mas durante toda a noite continua a ouvir barulhos estranhos no quarto que o obrigam a ficar toda a noite acordado.

De manhã, assim que fica dia, Mário Mendes sai e sem se despedir de ninguém apanha o comboio e só respira quando chega a Lisboa

E sim, diz Mário Mendes, dessa vez tive medo!!!

Nessa altura todos estavam já a dormir, Mário Mendes vai ainda aconchegar uma das mulheres que tinha adormecido com o pescoço dobrado e Gatita Blanca, que  de repente, com um golpe de rins, muda de posição e apaga o cigarro. Depois levanta-se e com o seu vestido de ceda dura a roçar pelo chão e a fazer rss, rss se aproximou de Mário Mendes. Olhou nos olhos, estendeu os seus braços nus, brancos e frios de estátua sobre o pescoço de Mário Mendes e “num súbito gesto de quem vai morder, esmagou a boca à sua boca num grande beijo de amor” sem tempo. Pode ter demorado um segundo, um minuto ou uma hora, porque “o tempo não de todos os mundos, o sobrenatural não tem lógica nem limites

Eu não faço ideia do que vocês acham disto, mas para mim é impossível haver alguma frase mais bonita e ao mesmo tempo mais erótica que esta… este conto é assim deste a primeira linha, até ao fim… isto é lindo!!!

Voltando ao conto, Paulo Freitas acorda entretanto com um bocejar que quase de lhe desloca o maxilar e acorda uma das outras raparigas com um beijo. Depois Casto Fresco faz o mesmo a outra

e a partir daqui é melhor substituir o que tinha escrito pelo que Florbela Espanca escreve porque é tão, tão, tão mais bonito dito por ela …”Então, Mário Mendes, perante o olhar atónito dos dois camaradas e o assombro das raparigas, abriu a porta de repente e desapareceu…

E nunca se soube, nunca talvez se saberá a razão porque um homem desdenhara desassombradamente o seu invejado direito, cobiçado por uma cidade inteira, de se deitar naquele resto de noite, entre os linhos e as rendas do sumptuoso leito da bela e misteriosa Gatita Blanca

Mais uma vez vos aconselho… vão descobrir um exemplar deste conto e leiam-no, porque merece a pena!!!!

Eu reconheço que a inteligência das mulheres têm, abre-lhes um espaço para desenvolverem coisas notáveis.

Estes contos de Flor Bela Espanca são um exemplo disto, o video que  tenho na primeira página é outro e esta história https://www.youtube.com/watch?v=CJXnYMl_SuA&list=RDCJXnYMl_SuA

em que a Maria João Pires toca um concerto todo de cabeça para o qual não tinha ensaiado é outra

agora ando em Santa Maria e só vejo médias … e ainda bem !!! o mundo dirigido por mulheres será certamente um mundo de paz!

Elas teriam de se esforçar muito, para conseguir fazer os disparates que nós homens fizemos. A ideia de meter a decisão junto da testosterona … só pode dar maus resultados 🙂

3 thoughts on “7 de julho

  1. E bom ouvir-te positivo em relação aos tratamentos. Tanto mais que já não é o primeiro embate, já estarás a 40% do ciclo!
    Quanto à M João Pires, e falando de memórias, sempre me fez uma confusão enorme como será que um músico consegue ter na cabeça a carrada de músicas que toca!
    É obra!
    Outro assunto: parabéns à tua Filha e a ti à Ana por a terem.
    PRÁ FRENTE!
    Abç

    1. Meu caro Rui,

      Mas neste caso, não apenas saber a peça de cor, que isso, sendo prodigioso, até admito que se consiga com muitos ensaios. O que acho fantastico aqui é que ela não tocava aquela peça há um ano… ela tinha passado o tempo a ensaiar uma coisa completamente diferente.

      Eu acho este exemplo uma coisa fabulosa…

  2. Belo conto! Sem discordar de ti quando à importância de ter mulheres em todos os lugares, para equilibrar este mundo louco, não posso deixar de dizer que um ou outro homem também faz umas coisas acertadas, de quando em vez :-).

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