Meus queridos amigos,
Hoje foi um dia importante!!! hoje cheguei aos 40% do meu tratamento de radio terapia e se isto é tudo que aquelas máquinas têm para dar… eu sou mais forte que elas e vou chegar aos 100% na boa 🙂 é que nem um paracetamol para as dores de cabeça preciso, porque o que sinto aguenta-se bem 🙂
Falando de coisas importantes conforme prometido, hoje consegui ler, resumir, verificar e publicar mais um conto. Como perdi o ritmo no fim de semana, hoje custou-me enormidades, mas amanhã só pode ser mais simples 🙂
O conto chama-se “O Arrependimento” e é de Camilo Castelo Branco, e começa assim;
O narrador começa por dizer que na sua mocidade costumava ir visitar uma senhora de idade, chamada D. Mafalda, que lhe contava histórias deliciosas. As horas com essa senhora passavam com uma velocidade vertiginosa, muito superior ao tempo em que ele distribuía galanteios ás moças dos mais belos salões da cidade
Houve um dia em que ele chega particularmente zangado com uma injustiça que tinham feito a alguém seu familiar e com cólera, prometia fazer justiça por suas mãos
Nessa altura, D. Mafalda surpreendeu-se e aconselhou-o a ter mais calma e a confiar mais na justiça das leis do que nos impulsos dos homens e perguntou-lhe se ele estava disponível para ouvir mais uma história.
A história começa por descrever uma família de três irmãos.
O mais novo vai para o Brasil onde se mete em negócios e ganha uma grande fortuna
O mais velho, Emídio Cunha, tinha poupado durante toda a sua vida e tinha posses suficientes para pensa numa calma velhice.
O do meio veio para Lisboa, mas faz apostas na maioria das vezes pouco prudentes, tendo portanto uma situação económica instável. Umas vezes está bem outras nem por isso, mas tem uma situação razoavelmente estabilizada.
Há ainda uma quarta filha, mas que foi nova para a Índia para onde enviaram o marido e que por não entrar nesta história, não é relevante mencionar
Acontece que o irmão do meio, a certa altura da sua vida decide aportar o que tem e o que não tem na bolsa, mas o investimento corre-lhe mal e fica na falência. O homem fica destroçado e o impacto é tão avassalador que três dias depois de ter falido, morre.
Este homem tem um filho chamado Roberto. Roberto é um jovem de 15 anos que por falta de acompanhamento paterno é praticamente um marginal.
Com pouquíssimos conhecimentos (talvez ao nível de um rapaz de 8 anos), dá-se com a escória da sociedade Lisboeta. Para ele roubar é uma coisa normal e é os códigos sociais vigentes servem unicamente para serem desrespeitados.
Ainda assim, Emídio Cunha, decide recolhe-lo em sua casa e mais do que isso, limpar o nome do irmão, assumindo-lhe as dívidas que tencionava pagar ao longo do tempo.
Emídio Cunha tinha também uma filha de 14 anos que era o oposto do primo. Toda ela era esmero e beleza, irradiava alegria e boa educação. As pessoas boas, ficavam melhores ao pé dela, mas pessoas más envergonhavam-se, e passavam a ser boas. Emídio Cunha contava com Valentina para ajudar a converter o sobrinho Roberto.
E foi de facto o que aconteceu, com o tempo o sobrinho foi percebendo que estava num mau caminho e foi-se corrigindo, enquanto crescia a amizade que tinha com a sua prima.
Entretanto, Emídio Cunha recebe uma comunicação do Brasil a dizer que o irmão mais novo também tinha morrido e que a sua presença era necessária para poder tomar conta da fortuna herdada.
Emídio Cunha tem um mal pressentimento relativamente a isto, adia enquanto pode a ida para o Brasil, mas acaba por ir.
Entretanto, cuida de colocar a filha num dos melhores colégios do Porto e arranjar uma casa particular onde meter Roberto.
Quando chega ao Brasil, começa rapidamente a tentar resolver a herança, mas a burocracia e a forma de resolver as coisas, faz com que a sua estadia, rapidamente se estenda por um ano, altura em que Emídio Cunha decide arranjar um procurador e regressar a Portugal.
Apanha um paquete que o deixa em Lisboa e procura um quarto de hotel para descansar antes de voltar ao Porto, onde o espera ansiosa a filha
Nesse ano que se passou, Roberto fugiu da casa onde tinha ficado e tinha voltado a dar-se com o pior da sociedade, transformando-se num verdadeiro delinquente
Valentina, por seu lado tinha crescido em corpo e graça. Toda ela era agora encanto, beleza e doçura.
A noite decorreu normalmente mas de manhã, Roberto decide entrar no hotel onde estava o tio e assaltar um quarto. Por coincidência, Roberto escolhe o quarto onde está o tio, entra dentro do quarto e quando cruzam o olhar, Emídio Cunha fica em estado de choque e Roberto foge.
Sem estar composto, o tio apanha o comboio para o entroncamento para depois seguir para o Porto numa viagem da malaposta de 36 horas
Quando chega ao Porto, a primeira coisa que faz é ir ter com a filha, e com grande emoção diz-lhe que a vem buscar para não mais se separem. Nessa antura Valentina fica muito comovida, e partilha com o pai a alegria de irem voltar a estar os três juntos.
Com a memória ainda fresca do que se tinha passado em Lisboa, Emídio Cunha diz a Valentina que Roberto tinha morrido para ele e explicou-lhe porque.
Passado pouco tempo, Emídio Cunha recebe do Brasil que após a liquidação de todos os bens, o procurador tinha desaparecido com todo o dinheiro.
Como Emídio Cunha tinha vendido tudo o que tinha para limpar o nome do irmão e pagar-lhe as dividas, entra ele próprio em falência.
Nessa altura, são obrigados a ir viver para os arredores numa casa alugada muito humilde. Ao inicio passaram grandes privações, mas a certa altura Valentina começar a trabalhar para uma modista, que pela qualidade do seu trabalho lhe vai dando mais e mais trabalho, até que ambos começam a viver numa medíocre abundancia.
Vivem desta forma durante dois anos até que Valentina recebe de Roberto uma carta. Nessa carta Roberto explica as circunstâncias em que encontrou o tio e que quando sai do seu quarto, correu com vergonha só parando no terreiro do paço onde se sentou exausto pensando no que tinha acabado de acontecer.
Cheio de remorsos, pede a um comante que lhe dê convés a troco de trabalho, num navio que o levou até à Califórnia. Ai jogou as poupanças que tinha, ganhou e com os ganhos comprou um estabelecimento. Hoje tinha conseguido levantar-se era uma pessoa diferente e que pedia para o aceitarem de volta.
Quando Valentina vai entusiasmada contar a novidade ao pai, comete o erro de começar por referir que tinha recebido uma carta do Roberto, e ao ouvir esse nome Emídio Cunha diz-lhe que a conversa acabou ali, não deixando que mais nada se voltasse a falar sobre ele.
Valentina escreve a resposta ao primo, explicando-lhe o que se tinha passado, e a situação de penúria em que eles estavam.
Algum tempo depois Emídio Cunha recebe uma notificação de que tinha recebido 20 contos por conta de uma “restituição”, que associou imediatamente a um gesto nobre do procurador que com remorsos, que tinha enviado uma parte da fortuna que tinha roubado.
Valentina tem outra opinião, diz que foi o primo que enviou esse dinheiro.
Apesar de se continua a corresponder com o primo, nunca tem a confirmação dele que foi de facto isto que se passou mas continua a tentar em vão falar com o pai sobre ele e vai passando ao primo todas as subtis alterações de comportamento do tio.
Em particular, há um dia em que o pai lhe pede para ela explicar exatamente o que sabia sobre o primo, sem no entanto reagir.
Depois há um outro dia em que do meio do nada, pai pergunta a Valentina se ele verdadeiramente acha que o primo se modificou e ela responde que sim. O comentário de Emídio Cunha é que espera sinceramente que ela esteja correta
Entretanto mudam-se os dois para uma casa mais confortável e com um pequeno jardim. Emídio Cunha estava sentado a olhar para a filha que estava a cuidar das flores quando Valentina fala do primo dizendo-lhe que ele era o filho pródigo no voltar aquela casa, sem perceber o que se passava, Emídio deixa correr uma grossa lagrima e olha em frente. Vendo que Valentina olha para alguém que está atrás de si, vira-se repentinamente, vê o seu sobrinho e perdoa-lhe
Acabada a história, o narrador mais uma vez deliciado com o que tinha acabado de ouvir, diz a D. Mafalda que ela devia escrever um romance.
A velha senhora, pergunta-lhe então se lhe pode apresentar uma pessoa no dia seguinte, ao que o narrador acede.
No dia seguinte, D. Mafalda apresenta-lhe o sobrinho, um grande industrial do norte, com o nome conhecido e respeitado por todos. Esse homem estava casado com uma mulher lindíssima de quem aliás tinha um filho traquinas e bonito.
Quando D. Mafalda lhe pergunta o que ele acha da pessoa que ela lhe acabou de apresentar, o narrador diz ser um modelo de virtudes. Nessa altura D. Mafalda revela-lhe que este homem, seu sobrinho era o Roberto da história do dia anterior.
O narrador termina refletindo sobre a capacidade de regeneração sempre que existe uma centelha de virtude que tenha ficado por alguma experiência que uma pessoa tenha vivido.
Tens que admitir que a qualidade da prosa de Camilo ultrapassa a do Eça! Camilo escreveu muito, bom e mau, porque vivia disso. Eram folhetins atrás de folhetins. Eça era diplomata, casado com fidalga.
Mas uma página de português do Camílo pode ser inultrapassável.
Parabens pelos 40%!
PRÁ FRENTE!
Abç
Meu caro Rui,
Entre Eça e Camilo, talvez escolhesse Machado de Assis. De qualquer forma, acho que não se põe o problema porque quando forem crescidos, serão todos como Flor Bela Espanca 🙂
Adorei o conto. Acreditar nas pessoas e nas segundas oportunidades.
Ahhh, Camilo e o perdão, que maravilha :-). Rumo aos 50% e em força!